Sobre a morte ser uma pena e a pena de morte...
Amanhã completa 1 ano da morte da minha avó. Acho que ela se foi depois do dia de finados por conta da vida que exalava para nós e em nós. Há dor e saudade no meu peito, há gratidão, memória e tantos outros sentimentos que fazem parte das boas relações da vida. Mas o universo da morte não tem espaço somente para essa experiência. Há tantas outras, infinitas, gerais e particulares. Cada pessoa é que sabe onde e como seu calo aperta... Diante disso e sobre isso, o meu mais genuíno respeito.
No dia que a vida separa um tempo para pensar a morte, se (re)encontrar com a dor e (re)viver a saudade de quem se ama e já não está entre nós, acordei com a notícia de uma pesquisa que o Fórum Brasileiro de Segurança Pública vai publicar amanhã. Nessa pesquisa, mais da metade da população brasileira, 57%, concorda com a afirmativa anunciada aos 4 ventos de que "bandido bom é bandido morto". Afirma ainda, que o índice de concordância sobe para 62% quando se trata de cidades com menos de 50 mil habitantes.
De forma alguma quero desmerecer as pessoas que responderam afirmativamente a essa perversa proposição. Não as conheço, muitas podem, sim, ter experiências extremamente dolorosas por conta da violência. Eu sei na pele o que é perder uma pessoa violentamente, tive uma prima assassinada, jogada ao relento e até hoje não foi possível descobrir quem a assassinou. No entanto, não desejo a morte para quem a matou!
Sei também que há pessoas que repetem e alardeiam tal perspectiva investigada, o fazem sem muita percepção e quiçá, responsabilidade. É possível que essas pessoas não tenham ou não terão a experiência de alguém próximo violentado e também de uma pessoa querida que tenha assumido a condição de "bandida".
Não está aqui um argumento ingênuo, obviamente não precisamos viver uma situação na pele para ter uma opinião formada. No entanto, colocar-se no lugar da outra pessoa, ter empatia, deve sim ser um exercício cotidiano, isto me desafia todos os dias, às vezes consigo, outras não, mas sempre tento e quase sempre intento. Obviamente que tal empatia não pode estar apenas com um lado ou outro, há que se ter compaixão de quem perde a pessoa querida, assim como de quem dela tirou a vida. Difícil isso! O que percebo é que as vezes a nossa demonstração de misericórdia com quem perdeu é justamente desejar a morte de quem matou. Exigir justiça sim! Sentenciar a morte, não.
O que me preocupa é a possibilidade de que muitas pessoas cristãs, especialmente evangélicas, engrossem o sim dessa pesquisa. Digo especialmente evangélicas, por ser esse meu universo, por saber do discurso que em tal espaço se predica e por amar e cotidianamente buscar conhecer um pouco mais do Evangelho. Diante da pena de morte implícita na afirmativa "bandido bom é bandido morto", algumas questões me suscitam.
A população carcerária masculina e feminina é majoritariamente negra (pretos/as e pardos/as), os jovens negros são os que mais morrem em situações violentas, a população negra tem menos acesso à educação, recebem os piores salários, ocupam a maioria dos cargos "sulbaternizados", desvalorizados socialmente, ocupam a maior parte dos territórios periféricos. Assim, quem deve morrer?
Como o racismo colabora para que essa afirmativa seja gritada na população brasileira que segundo o último censo é composta por 51% de afrodescendentes? Que racismo refinado é esse que estrutura e é estruturado sob o mito de uma democracia racial, que cega os olhos da população para uma visão contextual, complexa e abre mentes e ouvidos para encarar o racismo como algo factual, pontual, particular? Por que a igreja evangélica se "indispõem" a discutir essa agenda, afirmando ser isso temas dos esquerdotapas e falsos cristãos e cristãs, que merecem um "chupa" de um renomado pastor evangélico. A propósito pastor, o que o senhor nos pede para chupar? Seria o mesmo que sugere a música dos Aviões do Forró? Ou seria um sacolé (geladinho, chup-chup, etc.)?
Penso também que se "bandido bom é bandido morto", eu posso deliberar se alguém vive ou morre! Então, como fica a demonização do suicídio e do aborto? Não seriam essas questões ligadas à deliberação humana sobre a vida ou a morte de um semelhante? O que está por trás da tolerância com a pena de morte e a falta de compaixão com quem se suicida ou se envolve em uma situação de aborto?
O que mais de 20 anos de depressão e a convivência com quem tem vivido essa doença me mostram é que o suicídio não é a primeira opção de quem sofre e nem a melhor solução. Ele está mais ligado a busca pelo alívio do que pela ausência de vida! É justamente por desejar a vida que as pessoas, em meio ao desespero, desejam sair dessa condição sufocante, eliminar essa angústia ferina e assassina.
O que dizer do aborto? Não tive tantas experiências com pessoas que vivenciaram tal situação, talvez a figura pastoral e o fato de ser da Igreja, infelizmente, limitem a possibilidade de pessoas, inclusive as “crentes”, partilharem suas experiências sobre esse tema. Mas, nas poucas experiências de acompanhamento de pessoas que vivenciam tal situação, o que percebo é que abortar nunca é a primeira opção de alguém que vivencia essa situação. Percebo também que a carga, a culpa depositada na mulher nunca é a mesma depositada no homem que colaborou com essa gravidez e que, em muitos casos, nada faz para que o aborto não aconteça.
O discurso da Igreja dever ser o defender a vida em todo tempo!!! Mas, no que a Igreja tem mais investido? Na condenação do aborto ou em uma política preventiva do mesmo? É mais fácil falar de aborto do que de relacionamentos saudáveis entre as pessoas! É mais fácil falar de aborto do que de sexo, é mais fácil colocar as meninas que engravidam em "disciplina" do que dialogar honestamente e cuidadosamente, com meninos e meninas, sobre gravidez na adolescência.
A morte é uma pena, não pode ser evitada, mas a pena de morte deve, sim, ser evitada, coibida! É na esperança do Ressurreto, que trouxe outra sentença aquele bandido que com ele estava na cruz, que eu amo, sirvo e acredito na Igreja como proclamadora da Vida, educadora das relações e alento para quem sofre!
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