Cenas do cotiDIAno: Efatá!

Esta última semana foi daquelas que esgotam o corpo e a mente. Por isso, escrevo hoje o que contemplei na sexta-feira. Embora os dias passem numa velocidade estúpida, é bom saber que aquilo que nos toca vai em marcha lenta, até mesmo em marcha ré para que a gente não esqueça, não antes que com tal experiência, cresça.
Era uma travessa da avenida Paulista, chegamos a ela bem devagar já que estava tomada de carros. O sinal, ops! O farol estava fechado e o nosso carro com os vidros abertos. Eu acabara de olhar um colégio que estava a minha direita, é um dos excelentes colégios de SP. Enquanto meu olhar se desvencilhava dos inúmeros pensamentos que aquela escola me provocara, eu me deparei com crianças que atravessam a rua e se entrelaçavam aos carros.
O conceito “criança”, enternecido por aquele colégio, se dissolvia rapidamente com aquelas crianças, cujo ‘status quo’ os transformava em menores. Fechar os vidros para desacelerar o coração, foi assim que o fiz, mas que bom que não fechei os olhos. Um dos meninos parou em frente ao carro, ele não nos via, eu o contemplava, mas sem o enxergar.
O pequeno se aproximou do motociclista, eu esperava sem esperança algo nada bom, cochicharam por segundos. Eu curiosa estava, queria uma heroica audição além do alcance, não foi preciso, meus olhos entreabertos puderam contemplar o diálogo que se transformava em gestos.
Depois de conversar com o motociclista, o menino ávido tocava o acelerador da moto, ele queria apenas acelerar e lhe foi permitido brincar. A força da sua mão levou o motor ao máximo! O ronco do motor denunciava o preconceito que não havia chegado a minha boca, mas que consolidado no meu pensamento estava. Lentamente um envergonhado riso brotou-me, a medíocre visão que me levou a enxergar o menino como menor, constrangeu-se quando ao meus ouvidos ele, sem nenhuma palavra, gritou: eu também sou criança!
Lembro-me do encontro de Jesus com o surdo e gago (Marcos 7.31-37). O fato daquele homem ser gago, indica que ele não era de todo surdo, devia ter uma perda auditiva, mas não surdez profunda. Não escutava corretamente e além da perda auditiva, havia a gagueira.
A gagueira é uma patologia bem complexa, gera muitas dificuldades para quem a vivencia. Do riso desrespeitoso à intolerância por parte de quem tem pressa de entender, uma pessoa gaga tem que superar cotidianamente muitos empecilhos para se comunicar.
Dentre tantos aspectos da gagueira, destaco que ela tem a ver com a alteração da fluência da fala, assim a terapia se encaminha na direção de dar possibilidade para que a pessoa gaga se escute e "reaprenda" a falar.
Jesus, a Palavra e a escuta, se encontrou com o gago surdo. O milagre desse encontro é pouco difundido, mas a proposta terapêutica do Cristo é extremamente interessante. O texto diz que a multidão trouxe o homem a Jesus querendo que o Mestre impusesse as mãos sobre ele. Para além de uma "terapia convencional", Jesus traz outra proposta: retira-lhe da multidão, lhe toca os ouvidos e a língua. Ergue os olhos para o céu, suspira e lhe diz "Efatá", que quer dizer: abra-te. A riqueza da corporeidade de
Jesus abre margem para uma escrita para mais de metro, mas não intento fazê-lo agora.Aqui me atento ao milagre: os ouvidos se abriram, em seguida a língua se desvencilhou dos empecilhos e ele passou a falar corretamente. Tudo isso acontece depois que Cristo o retira da multidão.
Abrir-se para escutar, para recuperar a capacidade da escuta, traz outra forma de narrar a vida. Isso requer, muitas vezes, sair da multidão. O senso comum, o discurso de ódio, a ladainha da meritocracia e a infeliz poesia conservadora construídas e difundidas na multidão, podem diminuir a nossa capacidade de ouvir, e ainda distorcer a nossa escuta. Audição e fala estão intimamente conectadas, uma audição comprometida colabora para uma fala distorcida. No entanto o convite é: abra-te!
Abrir os ouvidos e, assim, eliminar os empecilhos da fala. O encontro com Jesus deu a essa pessoa a possibilidade de ampliar a sua escuta e transformar a sua forma de falar. Aquela criança, a mim se revelou como o Cristo, o roncar daquele motor era a ordem do Mestre: Efatá! Com isso, meus olhos marejados me permitiram escutar a infância curiosa daquele menino e ver a sua busca por garantir, na rua, um espaço gentil para a brincadeira. Com isso minha fala, traduzida por hora em escrita, me impele a (re)construir meus discursos.
Do lado direito da rua, as crianças dentro do colégio, do lado esquerdo da rua, e não de menor importância, as crianças que, pouco a pouco, diante do meu olhar se desconstruíam de menores para, mais uma vez, se encantarem em crianças.
O farol que já abria, apontava-nos a necessidade de seguir adiante. Na verde luz, o desafio de não mais ensurdecer-se, de abrir-se ao novo, construir discursos promotores de paz e justiça, cura e alívio. 

É preciso fazer fluir uma fala que garanta direito de escuta e possibilidades para as vozes abafadas ecoarem como roncos de motores denunciantes das nossas visões preconceituosas que diminuem o valor da vida...Há sinal verde para isso, pode seguir.

Foto: Facebook Mia Couto

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